21 de Março 2017, mais um dia em que vamos ouvir propaganda enganosa das celuloses

21 03 2017

Meu pai faria hoje 94 anos. Lembro-me sempre desta data que normalmente marca o início da Primavera. Ainda há sol. Amanhã já não. Apesar da saudade imensa, penso que é melhor que não tenha assistido à concretização de mais uma das suas “profecias”. Estou a pensar no “Portucalipal”, como lhe chamou, o imenso “estaleiro” de “talhadia de eucalipto” (relembro que meu pai se recusava a chamar-lhe floresta e já aqui expliquei porquê) em que se transformou o país. Em particular o que aconteceu em Vila Nova de Poiares: tudo o que era carvalhal ou pinhal se transformou em eucaliptal. Arrancam tudo com retro-escavadoras e vai tudo atrás, pinheiros, carvalhos, salgueiros, vimeiros, etc, todos os exemplares espontâneos da floresta nativa, vai tudo, até sobreiros, só escapam os que estão já altinhos e ainda é proibido deitá-los abaixo. Só podem deitar abaixo os sobreiros os consórcios de turismo amigos do Sócrates no tempo dele e outros ou os mesmos consórcios amigos do poder nacional ou local em cada momento histórico, pois eles sabem sempre com quem devem falar, seja qual for a cor que esteja no “poleiro”. Os sobreiros que escapam à voragem acabarão por ser afogados em eucaliptos que lhes tiram a luz e os nutrientes.
Pois é , tendo falecido há já 11 anos, meu pai já não vê aquilo que previu. O pior (ou melhor , não sei bem) é que eu acho que lá onde está, ele vê. Acredito que lá onde está também haverá uma forma mais distanciada de olhar para tudo isto. Pois lá onde está acho que a dimensão espaço tempo é diferente e talvez possa ver , num futuro , distante para nós, mas relativamente próximo para quem está com Deus na eternidade, a natureza um dia a vencer essa raça danada de vampiros que deformaram por completo a seu proveito o conceito de floresta e insultam o criador quando arrancam floresta verdadeira e nativa, vinhas, culturas para substituir por uma árvore australiana que não deixam que se transforme nunca na imponente árvore que é, que não deixam crescer de forma a que comece a devolver ao solo aquilo que de lá sugou. O eucalipto não é o culpado, deslocaram-no do sítio de onde é nativo, onde se transforma em floresta verdadeira , com bosque, sub-bosque e manta morta e fauna e flora completas que caracterizam uma floresta. Vão-me dizer que muitos terrenos estavam a mato. Pois estavam. Chamavam-lhe pousio noutros tempos. E , como meu pai explicou várias vezes, no meio do “mato” estão a crescer as árvores nativas. O mato debaixo da floresta é o sub-bosque que abriga toda a espécie de fauna (não esquecer as abelhas, por exemplo). Só que , tanta foi a publicidade enganosa a respeito da necessidade de “limpeza” da floresta que as pessoas vêem lixo onde não há lixo nenhum , mas arbustos e árvores jovens que se confundem. Os chamados matos são o alimento da floresta!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1 Eles são arbustos que em parte secam e apodrecem, juntamente com os ramos das árvores e folhas, transformando-se em matéria orgânica que alimenta a floresta , sem a qual nada cresce em lado nenhum. Só o eucalipto parece crescer espontaneamente nos terrenos ardidos ou ditos estéreis? Mas não. Também o pinheiro, os carvalhos, o sobreiro. Assim os deixassem crescer. Nos terrenos menos férteis o eucalipto também precisa de adubo e o produtor sabe bem disso. Vai sugar tudo , o adubo e mais ou que lá ainda houvesse, como a água, vai fazer secar as fontes e linhas de água. Mas nada disso importa. Os senhores do poder e do dinheiro que se confundem como praga que são , seja qual for a cor, vão dizer-nos que o que é preciso é que o PIB cresça, não importa como. Já aqui uma vez disse e repito. Então por que razão não cultivam papoilas do ópio? E não desenvolvem a indústria do armamento em Portugal ? Aliás, já fomos especializados nesta última produção aqui há umas décadas. Na terra do vale tudo, nada disso seria muito diferente do que o que estão a fazer com o futuro do fundo de fertilidade das terras de Portugal altas e não altas. Meu pai não era contra o ordenamento da floresta, o que é algo muito diferente dos programas de limpeza drástica e plantação maciça e em linha de eucaliptos em regime de talhadia. Ordenar a floresta não é intensificar a produção de mono-culturas!!!
Como dizem os franceses : “n’importe quoi”.

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Agora os culpados são os baldios?

13 08 2016

Terrenos abandonados são normalmente possuídos por pessoas ausentes, residindo noutras partes do país ou trabalhando no exterior. Baldios? Têm a certeza de que são os baldios que estão abandonados? Se assim for, é sinal de que as populações não se interessaram pelas terras comuns. Estranho ou se calhar não é estranho , se foram asfixiados financeiramente, se tiveram de emigrar, se perderam os empregos. Realmente os baldios não garantem a subsistência das famílias, não geram rendimentos suficientes para efectuar limpezas, sobretudo se os compartes decidiram eucaliptar e não apostar em espécies que dão emprego e têm boa procura e bons preços finais da produção, como a Oliveira,o Castanheiro, a nogueira, o pinheiro manso. Pois leva tempo , é um chatice. Patobravismo, é o que é, como dizia Victor Louro (ver post anterior)! Há zonas onde , dizem, nada mais dá senão o eucalipto. Pois é, as escarpas, parece que essa árvore consegue ir buscar água mesmo na rocha, até um certo ponto. Quando chuparem toda a água mais o fundo de fertilidade que ainda reste, o eucalipto também não vai dar. Tem dado? Renasce das cinzas? Pois é, renasce, a cinza é um adubo perfeito. Mas eu vejo eucaliptos a crescerem em terras de cultura, ou zonas onde uma terraplanagem chega para ser fácil de amanhar. No entanto, depois da terraplanagem o que surge lá? Adivinhem. Zonas onde se cultivava milho em tempos idos. Eucaliptos.Entregar os baldios às câmaras? Acham que vai resolver? E todos os terrenos que pertencem a pessoas ausentes, pessoas que nem sabem exatamente o que têm ou mesmo onde e o que cresce nelas. Herdaram , são terrenos classificados pelo fisco como rurais, não valem nada. Não ligam. Como é? as câmaras vão tomar conta e apresentam a conta aos proprietários? Ou é mesmo só os baldios que querem abocanhar? Mais umacompetência para as Câmaras sem reforço financeiro? O que vai acontecer? Simples: eucalipta-se. Terras menos difíceis de trabalhar é ainda mais fácil: arrendam-se às celuloses. Avizinham-se tempos fulgurosos para os acionistas das celuloses, Portucel e as outras. Eu parece que sabia que alguém iria ganhar com isto. Sei quem já perdeu e vai perder ainda mais.





Carta de sensibilidade aos fogos, Cecílio Gomes da Silva (relembrando) e perguntas retóricas sobre o que é hoje o ICNF

12 08 2016

Retomo um post  de 28 de Fevereiro de 2010 (sobre as enxurradas na Madeira) no blog In Extenso, de Raimundo Narciso, onde é citado o Engº Victor Louro. Acrescento eu que meu pai nunca foi dado a louvores e beija-mãos. Não trago este assunto de novo ao meu blogue por causa do não reconhecimento. Meu pai queria apenas que o lessem e seguissem os seus conselhos, de preferência. Só isso, porque amava a Natureza, o planeta, a sua Ilha da Madeira e o Continente onde viveu a maior parte da vida. Calculo por que razões o não o convidaram para a apresentação do livro. É que então deveriam dar-lhe a palavra e ele iria dizer as verdades incómodas.

Toda uma vida de luta contra a eucaliptação do país e obviamente, contra a máfia das celuloses. Tentaram comprá-lo, recusou convites para trabalhar para elas… Claro que houve quem aceitasse tais convites na D.G.das Florestas ou não? Que acham? Pessoas como meu pai quantas ? Havia sim, pessoas como o Engº Victor Louro, mas reformaram-se, faleceram outras. Quem anda agora por lá, pelo organismo que era a Direção Geral das Florestas e agora (se não mudou uma vez mais o nome) é chamado de ICNF, Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas ? Que não se ouve uma palavrinha contra os eucaliptos???? Para quem trabalham?

Vamos então ao post de 2010 do In Extenso

«Victor Louro sobre Eng. Silvicultor Cecílio Gomes da Silva.

 

Victor Louro é engenheiro silvicultor reformado, foi Secretário de Estado da Reforma Agrária no VI Governo Provisório e comenta o artigo de Cecílio Gomes da Silva, publicado em 1985, [ver post abaixo] que descreve um “sonho” onde “viu” a catástrofe (as cheias) que se poderia abater sobre o Funchal se não se tomassem medidas como as que propunha, e que… se abateu sobre a cidade em 2010!!
“O meu colega não é bruxo, mas é um grande Silvicultor. É um homem entusiasta e sabedor, que elaborou a 1ª carta de risco de incêndios florestais, nos anos 80: apesar das técnicas de então, esteve em uso 20 anos até 2003, quando foi substituida por uma outra resultante das imagens de satélite, com alta tecnologia !Foi este Homem que eu quis que o Ministério lhe atribuisse a medalha de Mérito Agrícola aquando da publicação da referida carta de 2003, sob a minha responsabilidade enquanto Director de Serviços. Mas nem sequer aceitaram a minha insistência para o convidar para a apresentação pública da mesma !

Escrevi na Apresentação desse livro:”A Carta de 1981 traduziu esse fenómeno com assinalável consistência. Ela foi possível graças ao conhecimento prático acumulado na DGF (que, na época detinha não só a responsabilidade da vigilância, como a do combate, ao menos nas matas que estavam sob sua gestao, ou seja, as Matas Nacionais e os Baldios). Mas, essencialmente, graças ao conhecimento científico que ali residia. E como as instituições não fazem o trabalho por elas próprias, é de elementar justiça destacar o saber e a técnica do Engenheiro Silvicultor Cecílio Gomes da Silva, o grande autor da referida Carta. Com papel vegetal e lápis, sobrepondo sucessivas cartas (climáticas, exposições, demografia e distribuição da vegetação), esse distinto silvicultor produziu um instrumento cartográfico assente nos conceitos disponíveis na época, que se revelou de grande utilidade.

Deve-lhe o País este reconhecimento público”.Quando o saber respeitar a Natureza é substituído pelo patobravismo, e a ganância ganha foros de “valor” humano e “guia” do comportamento, é inevitável que, mais tarde ou mais cedo, ela – a Natureza – nos lembre a burrice dessas irresponsabilidades. Mesmo que nos chamem idealistas e utópicos, é preciso ter a coragem de denunciar constantemente essas burrices -. porque a Terra é só uma.»

 





O “Portucaliptal” a concretizar-se

20 05 2015

Meu pai inventou esta palavra como sugestão para a mudança do nome do país. Meu pai, Cecílio Gomes da Silva,engenheiro silvicultor, faleceu em 2005, dedicou toda uma vida à floresta e muito escreveu contra o eucalipto, ou seja, contra aquilo que designava por “talhadia de eucalipto ” que não é o mesmo que floresta de eucaliptos, como há na Austrália, onde, dizia com o humor que o caracterizava , também há koalas e cangurus…. Nessa guerra contra a indústria do eucalipto que gera lucros enormes às celuloses, arranjou alguns inimigos dentro da Direção Geral das Florestas ou Serviços Florestais que era o nome antigo-hoje é outro nome, estão sempre a mudar de nome mas o que fazem é sempre o mesmo servindo os lobbies . Faleceu e a saudade é imensa , e vejo que também faz falta ao país. Mas como muito gostava e gosto dele ainda bem que não está aqui para ler isto:
Público :
Eucaliptos atraem quase 90% dos investimentos privados na floresta
MANUEL CARVALHO 19/05/2015 – 07:18
Oito em cada dez hectares de floresta plantados sem recurso a fundos públicos tiveram como destino os eucaliptos. A liberalização das plantações e replantações está a dar fôlego à espécie que já domina a floresta nacional.

Isto é a destruição do fundo de fertilidade de um país. A liberalização introduzida por este governo , permite substituir floresta de pinhal por eucaliptal e os “privados” são os pequenos proprietários que nada recebem quando a floresta arde, que são obrigados a limpar a floresta … tudo sem qualquer apoio , só ameaças de coimas ou limpeza pela câmara que apresentaria depois a factura ao proprietário (esta medida aliás introduzida pelo Partido Socialista e que contribuiu para que meu pai muito se enervasse nesse fatídico ano de 2005, ano em que faleceu). Os “privados, que, na sua maioria são pequenos proprietários, são empurrados para a “solução” amavelmente sugerida pelas celuloses, que lhes arrendam os terrenos, ou que lhes garantem o escoamento do material lenhoso a preços que sempre são qualquer coisa , se comparados com as despesas… Depois admirem-se de meu pai ser profeta. Meu pai não queria ser profeta, adoraria que se tivesse enganado nas previsões que fez em relação à enxurrada da Madeira. Quando o artigo de meu pai, intitulado “Eu tive um sonho” (Diário de Notícias – Funchal,13 de Janeiro 1985. ) , depois da tragédia da Madeira de 2010, foi divulgado na imprensa do continente e nas redes sociais como profético (já tinha falecido havia cinco anos quando se deu a desgraça na ilha da Madeira e o artigo tornou-se conhecido em todo o país ,pelo menos pelos mais interessados nas questões da floresta e da água) alguns, até mesmo pessoas com responsabilidades na gestão da floresta nacional, disseram que qualquer um podia fazer essa previsão, o que, acho eu, agrava muito as responsabilidades, tornando-se então a questão muito, mas muito grave. Então se qualquer um poderia fazer a previsão e nada fez para evitar a tragédia, estamos em presença de negligência criminosa, digo eu. O artigo de meu pai tinha (e tem )duas partes: uma é a previsão dita profética , a outra parte era a solução, também apresentada como sonho, era a reflorestação massiça com espécies endémicas (esta solução também defendia para o continente). Essa segunda parte , por acaso até tem estado a ser parcialmente concretizada na Madeira por associações amigas da floresta, por pessoas que o fizeram em homenagem a meu tio médico Rui Martírio Gomes da Silva ,também muito preocupado com a desflorestação, que sempre viveu na Madeira e lá faleceu, tendo doado à associação o terreno que tinha na montanha (consultar página de Raimundo Quintal no facebook sobre estas iniciativas) ; para além disso, na Madeira, pelo menos, há uma área protegida: a Laurissilva. Por aqui , no Continente, é este fartar vilanagem . Só o sobreiro escapa e mesmo esse é o que se sabe, quando há projetos turísticos , é o vale tudo, há sempre quem assine a autorização para arrancar!!!!!!!!!!!!…
O eucalipto consome toda a água das redondezas, o fundo de fertilidade – e acho que a história dos 48 e 60 anos é a história da carochinha… – mas, mesmo que seja verdade, pergunto eu: e depois dos 40 anos ou 60, o que é que fica? Eu digo-vos o que fica: um terreno sem qualquer fundo de fertilidade sem sub-bosque que segure as ravinas, um terreno que estará reduzido à rocha mãe , onde nada crescerá, nem o pinheiro bravo nem planta nenhuma, entretanto , a água e o vento se encarregarão de trazer o resto de solo e a rocha cá para baixo, aliás, é só vermos como nas estradas esse problema já está bem evidente: redes de malha fina penduradas, pedregulhos embrulhados em redes de malha grossa a sustentar o insustentável: encostas nuas de vegetação!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! E mais não vou dizer pois podem sempre atacar-me num ponto: não é a minha área. Pois não, o que sei sobre isto aprendi com meu pai e tenho lido muitos artigos sobre a desflorestação e a sua relação com a água ( na sua conservação e captação) e erosão consequente da desflorestação ou plantação de espécies não endémicas, altamente exigentes, de crescimento rápido e altamente combustíveis . Estou a descrever os eucaliptos mas não só (as pseudotsugas, por exemplo também não serão adequadas). Portanto, será que daqui a sessenta anos vão dizer que meu pai era profeta, pois muito escreveu sobre o eucalipto e contra a talhadia de eucalipto, explicando as consequências???????????? Também já cá não estarei mas estarão os netos de meu pai e os filhos deles. Mas isso importa a alguém nesta geração de oportunistas que têm mandado neste país????????????? E mais não digo pois tenho de evitar os AVCs, que estou a entrar na idade em que as subidas de tensão se tornam perigosas e estas coisas enervam-me profundamente, pois queria este país reflorestado com a floresta endémica, muito menos combustível, com o risco de fogos reduzido, com cidadãos não dominados pela ganância e pelo lucro fácil, pesssoas que amem a sua floresta verdadeira e completa e dela desfrutem.





A floresta e a água: artigos de meu pai, Cecílio Gomes da Silva

28 04 2013

Agora que estamos no período de transição entre as enxurradas e os fogos e/ou a seca, lembrei-me uma vez mais de como estes temas ( a floresta e a água) interessaram meu pai que sobre eles escreveu de forma clara , com base científica, mas em linguagem acessível a qualquer cidadão, de forma viva e expressiva muitas vezes mesmo contundente.

Pesquisa efectuada na Biblioteca Pública Regional da Madeira:
É gratificante encontrar um lista razoável dos artigos escritos por meu pai para revistas e jornais da Madeira. Infelizmente os artigos publicados em jornais do continente serão mais difíceis de encontrar.

Resultados da pesquisa ( são 30 registos em 3 páginas) o link é para a página 1

Deixo o link para o nº 1 da revista ISLENHA revista onde meu pai publicou alguns artigos, sendo de especial interesse os referentes à Laurissilva , património mundial. Os nºs 31 e 34 aparecem no catálogo mas deve haver pelo menos mais um. Ou melhor deveria haver mais dois ,considerando que meu pai lhe chama tetralogia. Sei que enviou a quarta parte, mas não encontrei publicada, pelo menos, na minha busca tanto no catálogo como nos índices das revistas Islenha posteriores ao nº 34.

“A floresta madeirense património mundial : narrativa de mistério, ficção e realidade : 2ª parte /” Cecílio Gomes da Silva
In: Islenha. – Funchal. – Nº 31 (Jul. – Dez. 2002). – p. 131-144
“Floresta madeirense ; Património da humanidade : A tetralogia madeirense e o milagroso Alambique “/ Cecílio Gomes da Silva
In: Islenha. – Funchal. – Nº 34 (Janº – Junho 2005). – p. 147-157





Cecílio Gomes da Silva: o que não é lixo na floresta portuguesa II

21 03 2010

Continuação do post de ontem:

«É necessário ainda esclarecer (quem estiver interessado) esta confusão entre “sujidade” e “sub-bosque”, por parte daqueles que, insisto, têm obrigação de saber que o sub-bosque não é porcaria que suja as matas. É uma componente do que em Ecologia se designa por “fitocenose” de um “ecossistema” que se chama “floresta”. Em questão está a “nossa floresta” que tem vindo rapidamente a degradar-se e a caminhar para a extinção; e não apenas pela acção dos fogos mas também, e principalmente, pela substituição maciça de matas mistas ou puras de folhosas por uma só espécie explorada em talhadia. Há também o massacre de azinheiras e sobreiros com alegações que lembram o provérbio do gato com o rabo de fora. Já há cerca de 20 anos, receava a substituição do nome de Portugal por “Portucaliptal”.

Voltemos ao sub-bosque (a tal “sujidade” das matas). Considerando apenas dois estratos logo abaixo do estrato arbóreo encontramos: medronheiros, folhados, pilriteiros, catapereiros, urzes, torgas, carquejas, tojos, giestas, piornos, adernos, codeços, zambujeiros, lentiscas, aroeiras e por aí abaixo até à “manta morta” onde apenas e só no nome ela é morta pois que é o estrato de maior actividade químico-biológica. 

Pretenderão convencer-nos de que tudo isto é lixo, a tal “sujidade” que faz arder as florestas? Elas só arderão se lá forem pôr criminosamente (só Deus sabe quem e com que interesses) as chamas que inflamarão essas “imundíces” que querem que de lá retirem. Pois tenho que os informar que  essa “esterqueira” é a grande fábrica natural recicladora, que restitui ao solo os nutrientes que alimentarão e manterão a floresta indefinidamente, recriando e protegendo o solo florestal contra a erosão, retendo a água que se escoaria sem ela (a  “esterqueira”), permitindo a sua total absorção. E já agora recordo-lhes quão valioso é esse elemento. A preciosa água que já vai faltando assustadoramente.

Os arautos das “limpezas” das matas declaram antecipadamente, com pompa e circunstância , o dia e o mês em que vai abrir a “época dos fogos”, tal como anunciam a “época da caça” ou a “época balnear”. Pois digo-vos mais: sinceramente desejaria ouvir de alguém que tivesse poder e competência que vai abrir “a época de caça aos incendiários” (mandados e mandatários) que andam pelos bosques, esquivos e bem remunerados.»

 Como já disse, não sei ainda se este artigo (que tem cerca de 16 páginas manuscritas de que apenas transcrevi  duas) foi posteriormente revisto e se foi publicado mas estou certa de que a defesa do sub-bosque era algo que o preocupava já há alguns anos antes do ano da sua morte (2005) e calculo que o tenha defendido em mais artigos. Para a prevenção de fogos, meu pai sustentava o ordenamento da floresta, a criação de redes de corta fogos, caminhos florestais, esses sim, limpos de mato, açudes para retenção de água que facilitaria o combate ao fogo e o policiamento das matas a cavalo à semelhança do Canadá.





Cecílio Gomes da Silva: o que não é “lixo” na floresta portuguesa

20 03 2010

A iniciativa ” Limpar Portugal” é uma ideia louvável do povo da Estónia e agora promovida e executada também em Portugal por pessoas empenhadas no mesmo ideal: as florestas, as dunas, os prados não são lixeiras.

Amanhã será o dia da árvore e meu pai, Cecílio Gomes da Silva, escreveu vários artigos para este dia que, por coincidência era também o dia do seu aniversário. Em um dos seus manuscritos, que penso ter sido enviado para o Expresso (terei ainda que conferir se de facto o enviou e se  foi ou não publicado) intitulado: «A floresta Portuguesa. “lixeira nacional”?! »  ataca veementemente uma certa ideia de “ limpeza” das matas. Obviamente que louvaria esta iniciativa de limpar as matas de “lixo autêntico”, ou seja, os detritos não biodegradáveis.

Apenas reproduzo aqui e hoje dois pequenos parágrafos com a ideia fundamental a respeito de um espécie de “lixo” que o não é e não deveria ser tratado como tal. Amanhã, por ocasião do dia da árvore, postarei mais dois parágrafos.

“[…]E chegou a ocasião de esclarecer este brando povo do que querem dizer (os tais “cientistas”), quando falam das “porcarias” que sujam as matas, os tais “lixos” que não sendo varridos, fazem arder as florestas e dificultam o combate ao fogo. Gostaria de saber se para combater o fogo há necessidade de se meterem pela floresta dentro, tal como perguntaria se, para combater o fogo num armazém cheio de palha , se meteriam pelo “palhal a dentro. Pergunta tola, mas já dizia a criança do conto, que “o Rei vai nu”.

Poderia sintetizar dizendo apenas que aquelas “imundícies” que sujam as matas são uma componente fundamental e inerente a uma floresta – o seu sub-bosque, constituído por vários estratos, sob o dossel do estrato arbóreo que, no caso português, é constituído por pinheiros, carvalhos, sobreiros, castanheiros, azinheiras, freixos, vimeiros, amieiros; até mesmo no primeiro caso, “o pinhal”, tem sempre a “sujá-lo” grande número destas espécies. Não se inclui nesta lista a “talhadia de eucalipto”, pois que não se trata de uma floresta, mas sim de uma exploração intensiva de lenha (produto principal constituído por material lenhoso com diâmetro inferior a 20 cm). Como tem uma revolução muito curta (10 a 12 anos) não tem tempo para ficar “suja”, embora também arda e de que maneira!