O dia dos “F”s

17 05 2017

O sábado passado, o dos três “F”s atuais (Fátima, Futebol, Festival) foi sociologicamente interessante, ou talvez nem tanto.

Fátima e futebol, quer queiramos quer não, dividem, há muitos que têm raiva a Fátima, há muitos que falam do “ópio do povo”. Estes esquecem ou negam que o marxismo, água de que também bebi um dia, foi  durante gerações uma inebriante forma de encarar o mundo e de ter sempre razão, ou seja, teve contornos de religião e fanatismo e serviu de suporte a ditaduras ferozes e a violência no que foi e será sempre diferente de Fátima; sim , o regime de Salazar, a dada altura viu as potencialidades de Fátima como suporte ideológico à sua continuidade e explorou-a ao máximo, sim, vimos na TV , no sábado, um ou outro caso de histerismo (que a Igreja não acalenta, bem pelo contrário), mas foram casos isolados. Entretanto, nas redes sociais, muitas vozes mordiam Fátima , como que com raiva a quem acredita nas aparições , em Deus, nos milagres…  Sabemos e ninguém se atreve a negar que há uma maioria católica em Portugal , uns mais do que outros, mas a maioria é crente e considera-se cristã. Não fiz nenhum estudo , acho que devia ser feito para tirar dúvidas, mas … alguém duvida ???

Quanto ao Futebol,  esse é outra espécie de ópio ,  também gera ódios, promove o consumo de álcool e episódios de violência. Relembro: Fátima é Paz, não é ali que se constroem sentimentos de pertença a grupos, com a correspondente desconfiança em relação ao “outro”. Não é ali que se criticam os que “não crêem , não esperam e não amam (a Deus)”, reza-se por eles. Aqui estou a adivinhar o que se passa na mente de alguns leitores potenciais. Não , não me parece haver sentimento de superioridade moral, apenas a certeza de que esses estão mais sós do que os que crêem ,esperam e amam (a Deus)”, pelo menos é impressão que tenho do que vai na alma dos que cantam esta frase, em Fátima e não só, apesar de se pedir perdão a Deus pelos não crentes, o que para mim não faz sentido nenhum , pois crer não é um ato voluntário , é uma dádiva , algo que nos acontece e pode acontecer a todos em qualquer momento da vida, algo que se pode perder também. Voltando ao futebol, era a festa do Benfica. Também não foi feito  um estudo para saber se a esmagadora maioria se considera benfiquista. Mas, alguém duvida??? Eu não sou nem nunca fui de clube nenhum, habituei-me a ter simpatias que herdei de família pelo Sporting, mas agora com o Jesus e mais o presidente cuspidor , a simpatia está a esgotar-se. Mas o que é facto é que muitos não se revêem no Benfica. São de outros clubes que não ganharam o campeonato. Portanto e resumindo, o futebol divide.

E finalmente, ao fim do dia, pois os três Fs aconteceram todos no Sábado, o Festival uniu! Muitos continuaram a beber , mas por uma “boa” causa. E” Viva Portugal!”, veio então esse sentimento de pertença a uma entidade abstrata, a “Pátria”, mas não exatamente em oposição aos outros, embora muitos aproveitassem para zurzir nos outros, por cantarem em Inglês , por exemplo. Será o nacionalimo bacoco deixado por Salazar? Será , não tenho dúvidas, mas na juventude mais “letrada” e viajada sente-se outro tipo de atmosfera: aquela que o nosso Salvador conseguiu fomentar nos bastidores do festival europeu-asiático-australiano (?!) um espírito internacionalista confirmado pelo seu Inglês impecável na conferência de imprensa.

Portanto de novo juntos. Acabou tudo bem. Queriam milagre? Tivemos um pouco disso, pois houve uma conjunção de fatores que fizeram aquela canção ganhar o festival. Isto digo eu que não percebo nada de música, embora tenha reconhecido imediatamente a influência Bossa Nova na canção vencedora que ouvi completa pela primeira vez no direto do festival. A  interpretação com alma, a  voz , a simpatia do Salvador , a canção simples e suave, com algum conteúdo (não muito, convenhamos) a apresentação sem efeitos especiais (de facto , “os fireworks”não faltaram na maioria das outras canções e o rapaz teve coragem ao dizer o que disse na conferência de imprensa). Uma Europa farta do “mais do mesmo”, inclinada a votar em algo fora do “sistema” , “out of the box”, foi determinante, na minha opinião. Milagre foi a conjunção de todos estes fatores e o sentimento de “comunidade portuguesa” pacificada , ao fim do dia!

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