Infantilização dos jovens ou a banilização do Ensino Secundário

20 04 2017

A propósito do artigo “A desculpabilização dos jovens tornou-se proporcional aos seus excessos” no Com Regras , achei por bem deitar uma acha para a fogueira neste meu post. Não concordo com Alexandre Henriques quando compara viagens de finalistas do 12º ano a viagens dos finalistas do 1º ciclo e defende que viagens de finalistas só no fim do superior. Não haverá contradição entre o que defende e esta ultima afirmação (que reproduzo) ?:
“Para mim, viagens de finalistas só quando são finalistas, quando terminam o superior. Se mesmo aí existem excessos, o que dizer de miúdos com 15, 16 e 17 anos de idade. Esta pressa de se ser crescido, só tem paralelo no ridículo da benção das pastas do pré-escolar e viagens de finalistas no 1°ciclo…”

Eu acho que o Secundário é de facto um ciclo muito importante na vida dos jovem. A entrega de diplomas com cerimónias mais ou menos dirigidas centralmente e para efeitos de propaganda ao governo de Sócrates (era então ministra MLR) tornou ridícula uma boa ideia, ou seja , a valorização do ciclo de estudos secundários. Muitos jovens não continuam estudos, preferem começar a trabalhar e ver mundo – prefiro chamar-lhe assim, a emigrar, dada a carga negativa da palavra, carga ampliada pela canção ridícula do Abrunhosa (uuuiii, já não vão partilhar este meu post , com este crime de lesa majestade… não faz mal, o mais certo era não partilharem por tudo o resto que afirmo, por isso para mim é igual 🙂 ). Ora a escolaridade obrigatória veio banalizar o 12º ano, juntamente com os cursos feitos a martelo ditos profissionais… e que dão o 12º ano a ignorantes.

A conclusão e não apenas a frequência do ciclo de estudos que termina o ensino secundário deveria, isso sim, ser o objetivo primeiro do jovem que se matricula no 10º ano e desde logo ser tomado a sério . Mas não é. É apenas para muitos o prolongamento da “boa vida” à custa dos pais e do “Estado”, ou seja, relembro que a escola custa dinheiro aos contribuintes (pais e não pais) e não apenas aos pais do “crianço” que vai olhando para si próprio como um ser com todos os direitos, mas com os deveres relativos, ou suspensos ou adiados para quando estiver por sua conta na “vida real” (o que acontece se os pais fecharem a torneira ou não tiverem mesmo possibilidade de continuar alimentar-lhes a vidinha de crias de canguru….).

A realização de festas de finalistas deveria ser no fim do ano, isso concordo, já com o diploma garantido. Ou seja, deveria haver festa de graduação. E é possível fazê-lo, basta que as escolas se organizem para isso e não autorizem a festa de “proms” no meio do ano letivo. Já as viagens de finalistas é um caso mais complicado. Os alunos obviamente têm de a realizar em época baixa. Nada contra. Até porque não há dúvida que eles são finalistas, ou seja estão no 12º porque concluíram o 11º ano, ou obtiveram as condições para transitar. O que está mal então? O alheamento dos pais? Não vos parece que ao afirmarem isto estão a passar um atestado de menoridade ao jovem adulto que organiza e participa nessa viagem? O que está errado é a ausência de mecanismos de auto-controlo por parte do jovem adulto. O que está mal é a impunidade. Na ausência de auto regulação, lamento mas a punição é a melhor prevenção. Pois a ausência de valores em cidadãos de 18 anos é algo que é muito preocupante e terá a ver com o alheamento dos pais muito antes disso, durante toda a socialização. Também a escola permissiva tem contribuído para o fenómeno. Mas alterar tudo isso é longo e difícil sobretudo quando temos responsáveis no Ministério da Educação a falar de flexibilização do currículo, das transições de ano… e mais ainda o que se verá, sempre a tornar cada vez mais fácil a vidinha do estudante que não se quer controlar ou esforçar e a dificultar concomitantemente a vida do estudante que se esforça, dado que se torna mais complicado aprender numa sala de aula instável e ruidosa, sendo desmotivante ver transitar quem andou a brincar o ano todo. A motivação principal de quem se esforça é sempre o ensino superior. Muitos dos que aproveitam apenas para se divertirem nas aulas e fora delas no secundário já sabem que não vão entrar no superior. Ora é aí que a minha ideia ganha mais consistência: é necessário valorizar a conclusão do ensino secundário.

Os historiadores da Educação sabem que houve períodos em que “andar a estudar” significava fazer a escola primária e não eram muitos os que podiam, depois passou a 2º ciclo, 3º ciclo. Fazer o Curso Geral dos Liceus continuou a ser só para alguns durante muito tempo. Agora temos a obrigatoriedade, ou seja , o trabalho só começa aos 18 …. (se começar) e o governo pode diminuir estatisticamente a taxa de desemprego. Não quer isto dizer que defenda o voltar para trás, entenda-se!!!!!!!!!!!!!!!!

Acrescento ainda uma outra questão. Se o ensino secundário tivesse, por assim dizer, vida própria para além do acesso ao superior poderia pensar-se talvez em flexibilizar a escolha de cadeiras dos cursos regulares. Se é isso que estão a pensar quando falam de flexibilização então estaria de acordo com uma oferta mais diversificada de cursos regulares, pois acho muito triste que os alunos que odeiam estudar sejam misturados com alunos que apenas não gostam e não são bons em Matemática e é isso que acontece nos cursos humanísticos, infelizmente, desvalorizando um tipo de estudos apenas por efeito colateral… Deveria ser possível valorizar os cursos de Letras e haver “boas turmas de “Letras” no ensino secundário, o que seria bom para alunos e professores das ditas. O que se tem passado mais frequentemente é que os melhores alunos de “Letras”, ou seja de língua materna e estrangeira estão nos cursos de “Ciências”. Haver cursos regulares sem acesso ao superior? Pois é mesmo isso que eu defendo. O acesso, aliás, dependeria das Universidades apenas. Isso é bem melhor do que dirigir os alunos para uns cursos profissionais de utilidade duvidosa para os quais não têm nem apetência nem vocação. Obviamente que a Língua materna deveria sempre ser obrigatória, mas acho que os alunos deveriam poder escolher disciplinas do seu agrado dentro da oferta da escola. Isso disseminá-los-ia (ui escolha errada da palavra… ) pelas turmas e quem sabe talvez ganhassem vontade de se aplicar nos estudos. Obviamente que Matemática A, Física e Química só poderiam ser escolhidas por quem tivesse passado a essa disciplina no 3º ciclo (eu até acho que deveria ser exigida nota mínima de 4, mas isso é ainda outra questão).

Quanto aos finalistas do superior estamos conversados. Para entenderem melhor o que eu quero dizer, venham a Coimbra um dia depois de terminada a queima das fitas. Mas tragam sapatos fechados com sola grossa ou seja, calçado resistente a vidros partidos de garrafas de cerveja e ao risco biológico associado a outros resíduos pouco definidos, mas suspeitos…

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