A propósito dos fogos , do ordenamento da floresta, uma vez mais, meu pai, Cecílio Gomes da Silva

11 08 2016

O Presidente da República disse uma coisa a que ninguém ligou muito , mas que é fundamental para o combate aos fogos e não só. Referiu que se deveria fazer o CADASTRO do território. Assunto interessante para historiadores, este do cadastro. Não sendo eu historiadora, não vou dizer nada sobre as razões pelas quais não existe (ou melhor, pelas quais só existe em alguns municípios). Seria interessante saber por que razão esses municípios o fizeram. Inteligência à frente da Câmara Municipal? Só pode.
As terras do Estado devem ter cadastro a não ser que também se tenha vindo a alienar território nacional, o que já não me espantava. É que o trabalho de meu pai não era no gabinete. Meu pai passou toda uma vida a andar pelas serras a demarcar as terras do Estado e os baldios, sempre acompanhado de pessoas da localidade que sabiam bem os limites. Ia de jeep, claro, passava por sítios inimagináveis, o resto fazia a pé. Conhecia as serras a norte do Tejo como ninguém, atrevo-me a dizer, a não ser os que lá vivem, claro está. Também as do sul mas não há assim tantas. Não foi por acaso que devorava Aquilino Ribeiro, tendo sido o livro “Quando os Lobos Uivam” (também “As terras do Demo”) a obra de referência que o fez continuar a ler esse autor até ao fim da vida. Meu pai esteve lá, por essa altura, naquelas serras e povoações, como representante do Estado. Felizmente, a sua simplicidade, o seu poder de comunicação e de procura de soluções de consenso, o conhecimento do terreno, o seu apurado sentido de justiça, todas essas características contribuíram para que todos o tivessem respeitado quando por essas terras andou. Acrescento a este propósito realçando que foi , depois do 25 de Abril ,um acérrimo defensor dos baldios , tendo-se batido para que as populações fossem diretamente proprietárias constituindo-se em “assembleias de compartes” e não as câmaras nem o Estado. Só para relembrar , pois este assunto daria para muito mais prosa.
Conhecia a floresta e o tipo de floresta ou culturas de cada concelho ou não teria sido possível, fazer, à mão, a primeira carta de sensibilidade ao fogo, no tempo em que não havia computadores. Já referi esta carta em post anterior neste blog. Foi feita outra carta atualizada com base na que o meu pai elaborou e nos indicadores por ele escolhidos. Para que serviu essa carta que fizeram já com os meios de imagem disponíveis de agora?
Pergunto: como se pode fazer o ordenamento da floresta, sem saber a quem ela pertence, sem saber os limites das várias pequenas parcelas, e tendo apenas uma estimativa vaga das áreas? A motivação do fisco em reavaliar parcelas diz respeito às urbanas pois são essas que proporcionam IMI interessante. O resto, deixa andar, nem querem ouvir falar disso e dificultam ou impossibilitam , por exemplo, processos de emparcelamento que seriam fundamentais em muitos casos para que fosse possível explorar de forma racional a floresta.
Quanto à lei que o governo anterior alterou , a lei que mandava que onde tivesse ardido pinhal, era plantado pinhal? Onde ardesse castanheiro era plantado castanheiro, onde sobreiro, sobreiro, onde oliveira, oliveira…? Desapareceu pelas mãos de Passos Coelho, pois foi( mas o governo socialista andava louquinho para a fazer…) . O governo de Sócrates introduziu a obrigação de limpeza junto às casas e respetivas coimas.Resultado? Muitas pessoas venderam as parcelas às celuloses. Outros …eucaliptaram por ser mais fácil de “limpar”. E foi um ver se te avias. Uma explosão de eucaliptais por tudo quanto é lado. Que lhes importa aos governantes e aos donos das celuloses que ardam com os eucaliptos árvores seculares, algumas classificadas como património natural? Que ardam as espécies nativas que alguns proprietários persistem em cultivar, como carvalho, sobreiro, amieiro, freixos, castanheiros , nogueiras, cedros e oliveiras, vinhas e várias espécies que garantiam a biodiversidade? Que lhes importa que ardam culturas? Que ardam casas ? As ações das celuloses têm valorizado nos últimos anos de forma muito interessante para os pançudos que as têm. E os governos falam da importância da fileira que chamam florestal no PIB e nas exportações…. Ordenamento? Já aqui fiz um post a esse respeito. É fácil o ordenamento: tudo o que não é urbano é eucaliptal, sarapintado de umas parcelas de culturas. É assim na zona do minifúndio que ocupa a maior parte do território a Norte do Tejo. A Sul , nem é bom falar. Terras infindas com vocação para serem de cultura , até mesmo de regadio, transformadas em eucaliptal. Quanto ao pinhal que resta, tem o mesmo destino: vai parar às fábricas para triturar e os pinheiros transformam-se em pasta de papel. Restam algumas serrações mas, essas só vão buscar os pinheiros já com porte de respeito, direitinhos e de fácil acesso. O que pedem ao proprietário para cortar e transportar é mais do que o que dão pela madeira. Está bem de ver que, face a esta situação, dizia um vizinho meu, quem tiver pinheiros qualquer dia vai valer a pena, pois cada vez mais se vai tornando uma espécie rara. Quanto ao pinheiro manso, resistente ao nemátodo, sabemos o preço dos pinhões. São quase tão caros como as trufas… As manchas de pinheiro manso são cada vez menores. O castanheiro vai cedendo terreno ao eucalipto. Apanhar castanhas? Apanhar pinhões? Numa terra onde anda tudo a procurar pokémons? Claro, há ainda quem persista. Honra lhes seja feita a esses proprietários teimosos, que gostam de ver os castanheiros ou as nogueiras nas suas florestas , que os regaram quando eram pequenos, cuidaram deles e anos depois, porventura muitos anos depois vêem-nos entregar os frutos com generosidade. Frutos que é preciso vigiar, o bicho que os “biológicos” protegem, pode arrasar a castanha. Eu até acho que os pesticidas são sempre de evitar , mas haverá formas não agressivas de combater pragas , a indústria química evoluiu bastante, acho que já há produtos que são específicos para cada insecto e não atacam as abelhas. Sobretudo há também seleção de espécies mais resistentes a pragas. E voltamos ao eucalipto. Esse resiste a tudo, mas parece que um gorgulho o ataca. Já ouvi dizer que a vespa gigante (asiática, chamam-lhe) que prolifera cada vez mais no país , come o gorgulho do eucalipto. Ora eu, que sou desconfiada, já calculo quem introduziu essa tal vespa no país. Essa vespa também come abelhas.
Ordenamento? Isto é a república do eucalipto, não das bananas que essas ainda se comem. E não, não foi a Europa a culpada, valha-vos Deus! Respeitai a vossa inteligência já que a minha já vi que poucos respeitam.

PS: Meu pai ficou postumamente conhecido pelo artigo que escreveu e publicou intitulado “Eu tive um sonho” em que fazia uma antevisão profética das cheias na Madeira arrasando a baixa do Funchal. Não conheço nenhum artigo que tenha deixado escrito sobre um sonho com a previsão do Funchal em chamas. No entanto, muito escreveu sobre a floresta, o erro associado à introdução de espécies invasivas não nativas e sobre a conservação e gestão da preciosa água na Madeira, que, como sabemos , não tem rios, só ribeiras. Quem não souber a diferença entre um rio e uma ribeira , informe-se (no google, por exemplo)


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