Desertores, refratários e veteranos

21 04 2016

Público:
“Eu fui desertor. Digo-o com todo o gosto”

CATARINA GOMES 21/04/2016 – 08:52

Milhares de jovens desertaram durante a guerra colonial. Para que a deserção saia “debaixo do tapete”, vai ser lançado um livro, foi criada uma nova associação e um colóquio vai abordar, pela primeira vez, um tema que teima em andar em torno “do binómio coragem/cobardia”. “Ainda é preciso explicar.”

Vale a pena ler o artigo e até ir talvez ao colóquio que promete ser monocromático. Pena pois o que falta é ainda a CORAGEM de convidar veteranos da guerra colonial que também são mal vistos e mesmo insultados por uma parte bem sonora da sociedade: a nossa esquerda envelhecida e ressequida pelos marxismos que se lhes instalaram nas veias como droga para a vida inteira. Eu não sou já a pessoa, aliás, há muito que não sou a miúda que andou a gritar: “nem mais um só soldado para as colónias” (enquanto nas colónias os nossos concidadãos e concidadãs eram degoladas(os) em Angola e Moçambique, tendo sido maus ou bons patrões , só por serem brancos e confiarem nas forças militares portuguesas…)
Vejam a série “depois do adeus” ou revejam. Só faz bem. A mim está-me a fazer muito bem. Sobretudo as imagens de arquivo. Eu votei Otelo, não Ramalho Eanes. E acreditava naquelas patranhas da força popular, e democracia popular…. Pois foi. Já não sou aquela miúda, mas lembro-me de ser. E entre  os meus personagens preferidos na série está o “alferes” e não é só por ser um bonito homem e um ótimo ator (Miguel Borges).
Foi, passou , amadureci. Os desertores são heróis? Acho que não. Foram corajosos se de facto desertaram por não concordar com a guerra, corajosos por uma razão: nunca mais iriam poder voltar ao país e durante “salto” podiam ser apanhados. Mas heróis mesmo foram os militares de Abril: podia não ter resultado. E depois, se não resultasse, como teriam sido tratados pelo regime? Como teriam sido punidos? Nem toda a gente pensa nisto e as lágrimas de crocodilo da esquerda pelo Capitão Salgueiro Maia (que nunca saltou na carreira como muitos outros que se tornaram generais por golpe de magia) não me comovem , a admiração sabe a falso, é postiça, artificial. Os heróis da esquerda são os milicianos , os meninos bem que nunca foram à guerra… Sorry , mas mudei muito, ou talvez não , pois desde os meus doze anos que andava às voltas com uma questão: por que raio de razão as mulheres eram dispensadas do serviço militar? O meu feminismo vem de muito longe, é visceral e esse nunca mudou.
Quanto aos veteranos, alguém se interessa por fazer um estudo sobre os seus testemunhos? Alguém os considera heróis, quando muitos o foram mesmo?


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2 responses

21 10 2016
Manuel Vieira

“Patranhices”.
Ou se fala de um “clube ou de outro”. Confundir, desertores, refractários, veteranos e intitular “herois” quem dela já estava “farto” e queriam ter uma carreira calma e serena em oposição aos milicianos que os afrontavam, bem como falar-se de “traumas políticos” que de Guerra se tratou de facto, mas que apenas aos mortos lhe ergueram um monumento de fachada na Doca do Bom Sucesso e se vão esquecendo dos sobrevivos. ISSO NÃO…

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22 10 2016
mcgs07

Não sei se acha “patranhices” o que eu escrevi, mas olhe,isto é um blogue pessoal, não um órgão de comunicação como é o Público. Leu com atenção o que escrevi? Não acha que se devam misturar uns e outros , tudo bem, de facto a coisa iria correr mal, como se está a ver, ainda não foram ultrapassados os ódios de estimação que existem no país e que em muito ultrapassam os ódios entre Benfica e os outros e vice versa. Eu apenas acho que a falar é que a gente se entende como diz o povo. No entanto, a falar também a gente se desentende. por isso , honestamente,não sei o que é melhor. Acho que uma convenção qualquer de veteranos não seria má ideia, com uma posição comum em forma escrita que não seja apenas reivindicativa (embora a parte reivindicativa seja mais que legítima), mas uma declaração política seria boa ideia , até para que não fiquemos a pensar que são todos frustrados e de extrema direita que é o que por aí se diz.

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