Da apropriação da arte…

15 01 2016

A arte é mesmo a zona mais livre da produção intelectual humana. Impossível apropriar-nos de uma pintura, de uma música , de um livro, excluindo os outros da sua fruição e apropriação no sentido de tornar sua, não no sentido de reclamar autoria. O autor pode tentar enquanto vivo e a família até 50 anos da sua morte, ganhar algum com o produto, mas impedir que ele seja visto, ouvido ou lido, impossível desde a primeira exposição ou publicação. No campo dos ditos cantores e poetas de intervenção acontece algo muito típico de uma pequenez que é infelizmente lusa. Enquanto somos excelentes na arte de piratear , vamo-nos apropriando desses cantores e poetas conforme a área política…(com exclusão dos “outros” do direito de fazerem suas também algumas obras) O fenómeno Zeca é típico. Considerado pelo PCP e todos à sua direita como esquerdista, durante o PREC e depois enquanto foi vivo, foi depois sendo progressivamente apropriado pelo PCP e pela extrema esquerda que ainda não era nascida quando Zeca cantou e foi parar à cadeia, quando muitos discos foram proibidos… quando era perigoso ouvir essas canções proibidas…e sobretudo cantá-las. Zeca Afonso depois do 25 de Abril tornou-se mais explícito nas canções de intervenção , o que determinou uma temporalização, uma contextualização geográfica que diminuiu a universalidade da maior parte das suas canções desse tempo. No entanto, ficaram muitas que são poemas universais. Grândola tornou-se um símbolo e muitos que a cantam não sabem onde fica tal sítio. Quem acha que pode dizer este cantor é dos meus pode ficar feliz, mas não pode dizer que esse cantor não é de mais ninguém. Mesmo aqueles que não eram nascidos quando ele morreu têm todo o direito de se reverem nele. Todos podem admirar um cantor só a título póstumo. Não vejo nenhum oportunismo nisso, pelo contrário, ao menos a sua morte fica menos absurda, ele continua a viver no ccoração de mais pessoas.
Podemos achar estranho e mesmo divertido ver Sarkozy a cantar o hino da resistência (eu vi, cantou mesmo, quando era presidente numa cerimónia de homenagem) , mas não podemos dizer que não faz sentido nenhum, pois não sabemos mesmo qual seria a sua postura se estivesse em França durante a ocupação nazi. Foram sobretudo os comunistas que resistiram , isso é sabido , mas não foram só eles que combateram o nazismo, tanto na resistência como sob diversas formas, algumas eventualmente de eficácia superior à da resistência armada em termos de vidas salvas. Mas, na minha opinião , apenas pontualmente, ou seja, de facto, não havia na altura alternativa política, só mesmo a resistência armada poderia enfraquecer os ocupantes, a colaboração enfraqueceu a resistência. No entanto , não julgo quem achou que poderia salvar mais vidas com a colaboração. Nem julgo os excessos da resistência. Eram tempos de horror e de terror por parte dos ocupantes que dificilmente conseguimos imaginar, que determinaram uma luta que tinha de ser clandestina, funcionando por células, com atuação de tipo guerrilha, com todos os excessos inerentes tanto externa como internamente. Tudo isto para defender que o facto de uma determinada canção resultar ou enaltecer uma resistência violenta não significa que deva ser banida e considerada terrorista se cantada noutras situações. Teremos obviamente de a ler de forma adaptada aos novos tempos. Um exemplo muito claro disso é a Marselhesa. Nem é preciso conhecermos todo o texto, bem datado, o refrão diz tudo. Quando a cantamos estamos a pensar na bandeira ensanguentada? No sangue impuro a encharcar ou correr pelos campos de cultivo (se bem entendi o texto, é isto que é dito… )? A Marselhesa tornou-se um hino de resistência ao terrorismo islâmico ou outro qualquer, já não é apenas o Hino Nacional da França. Todos quantos se sentiram ameaçados nos seus direitos, liberdades e garantias, na sua civilização, no seu modo de viver, apropriaram-se da canção definitivamente.


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: