O “Portucaliptal” a concretizar-se

20 05 2015

Meu pai inventou esta palavra como sugestão para a mudança do nome do país. Meu pai, Cecílio Gomes da Silva,engenheiro silvicultor, faleceu em 2005, dedicou toda uma vida à floresta e muito escreveu contra o eucalipto, ou seja, contra aquilo que designava por “talhadia de eucalipto ” que não é o mesmo que floresta de eucaliptos, como há na Austrália, onde, dizia com o humor que o caracterizava , também há koalas e cangurus…. Nessa guerra contra a indústria do eucalipto que gera lucros enormes às celuloses, arranjou alguns inimigos dentro da Direção Geral das Florestas ou Serviços Florestais que era o nome antigo-hoje é outro nome, estão sempre a mudar de nome mas o que fazem é sempre o mesmo servindo os lobbies . Faleceu e a saudade é imensa , e vejo que também faz falta ao país. Mas como muito gostava e gosto dele ainda bem que não está aqui para ler isto:
Público :
Eucaliptos atraem quase 90% dos investimentos privados na floresta
MANUEL CARVALHO 19/05/2015 – 07:18
Oito em cada dez hectares de floresta plantados sem recurso a fundos públicos tiveram como destino os eucaliptos. A liberalização das plantações e replantações está a dar fôlego à espécie que já domina a floresta nacional.

Isto é a destruição do fundo de fertilidade de um país. A liberalização introduzida por este governo , permite substituir floresta de pinhal por eucaliptal e os “privados” são os pequenos proprietários que nada recebem quando a floresta arde, que são obrigados a limpar a floresta … tudo sem qualquer apoio , só ameaças de coimas ou limpeza pela câmara que apresentaria depois a factura ao proprietário (esta medida aliás introduzida pelo Partido Socialista e que contribuiu para que meu pai muito se enervasse nesse fatídico ano de 2005, ano em que faleceu). Os “privados, que, na sua maioria são pequenos proprietários, são empurrados para a “solução” amavelmente sugerida pelas celuloses, que lhes arrendam os terrenos, ou que lhes garantem o escoamento do material lenhoso a preços que sempre são qualquer coisa , se comparados com as despesas… Depois admirem-se de meu pai ser profeta. Meu pai não queria ser profeta, adoraria que se tivesse enganado nas previsões que fez em relação à enxurrada da Madeira. Quando o artigo de meu pai, intitulado “Eu tive um sonho” (Diário de Notícias – Funchal,13 de Janeiro 1985. ) , depois da tragédia da Madeira de 2010, foi divulgado na imprensa do continente e nas redes sociais como profético (já tinha falecido havia cinco anos quando se deu a desgraça na ilha da Madeira e o artigo tornou-se conhecido em todo o país ,pelo menos pelos mais interessados nas questões da floresta e da água) alguns, até mesmo pessoas com responsabilidades na gestão da floresta nacional, disseram que qualquer um podia fazer essa previsão, o que, acho eu, agrava muito as responsabilidades, tornando-se então a questão muito, mas muito grave. Então se qualquer um poderia fazer a previsão e nada fez para evitar a tragédia, estamos em presença de negligência criminosa, digo eu. O artigo de meu pai tinha (e tem )duas partes: uma é a previsão dita profética , a outra parte era a solução, também apresentada como sonho, era a reflorestação massiça com espécies endémicas (esta solução também defendia para o continente). Essa segunda parte , por acaso até tem estado a ser parcialmente concretizada na Madeira por associações amigas da floresta, por pessoas que o fizeram em homenagem a meu tio médico Rui Martírio Gomes da Silva ,também muito preocupado com a desflorestação, que sempre viveu na Madeira e lá faleceu, tendo doado à associação o terreno que tinha na montanha (consultar página de Raimundo Quintal no facebook sobre estas iniciativas) ; para além disso, na Madeira, pelo menos, há uma área protegida: a Laurissilva. Por aqui , no Continente, é este fartar vilanagem . Só o sobreiro escapa e mesmo esse é o que se sabe, quando há projetos turísticos , é o vale tudo, há sempre quem assine a autorização para arrancar!!!!!!!!!!!!…
O eucalipto consome toda a água das redondezas, o fundo de fertilidade – e acho que a história dos 48 e 60 anos é a história da carochinha… – mas, mesmo que seja verdade, pergunto eu: e depois dos 40 anos ou 60, o que é que fica? Eu digo-vos o que fica: um terreno sem qualquer fundo de fertilidade sem sub-bosque que segure as ravinas, um terreno que estará reduzido à rocha mãe , onde nada crescerá, nem o pinheiro bravo nem planta nenhuma, entretanto , a água e o vento se encarregarão de trazer o resto de solo e a rocha cá para baixo, aliás, é só vermos como nas estradas esse problema já está bem evidente: redes de malha fina penduradas, pedregulhos embrulhados em redes de malha grossa a sustentar o insustentável: encostas nuas de vegetação!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! E mais não vou dizer pois podem sempre atacar-me num ponto: não é a minha área. Pois não, o que sei sobre isto aprendi com meu pai e tenho lido muitos artigos sobre a desflorestação e a sua relação com a água ( na sua conservação e captação) e erosão consequente da desflorestação ou plantação de espécies não endémicas, altamente exigentes, de crescimento rápido e altamente combustíveis . Estou a descrever os eucaliptos mas não só (as pseudotsugas, por exemplo também não serão adequadas). Portanto, será que daqui a sessenta anos vão dizer que meu pai era profeta, pois muito escreveu sobre o eucalipto e contra a talhadia de eucalipto, explicando as consequências???????????? Também já cá não estarei mas estarão os netos de meu pai e os filhos deles. Mas isso importa a alguém nesta geração de oportunistas que têm mandado neste país????????????? E mais não digo pois tenho de evitar os AVCs, que estou a entrar na idade em que as subidas de tensão se tornam perigosas e estas coisas enervam-me profundamente, pois queria este país reflorestado com a floresta endémica, muito menos combustível, com o risco de fogos reduzido, com cidadãos não dominados pela ganância e pelo lucro fácil, pesssoas que amem a sua floresta verdadeira e completa e dela desfrutem.


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