“Um dia isto tinha que acontecer” Testemunho de vida em comentário a um artigo de Mia Couto

7 10 2014

“Um dia isto tinha que acontecer” é o nome do artigo de Mia Couto que corre no face book e do qual cito os primeiros parágrafos. Texto magnífico como é de esperar deste génio da Literatura e que é necessário ler até à última palavra.
“Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.[…]

Pois é isto mesmo que tenho tentado dizer há décadas, mas faltou-me talvez eloquência e de certeza a genialidade de formulação de Mia Couto. Mas disse-o sempre na sala de aula, desde que me apercebi do facilitismo que se agravava em cadência acelerada à medida que a escolaridade obrigatória ia avançando até ao 12º ano. Não tenho filhos. Avisei os meus alunos da prenda envenenada. Sinto culpa? Sim. A de ter desistido de lutar  nos últimos anos (depois de 2008), os anos Sócrates/MLRodrigues, os anos da “avaliação de desempenho dos docentes”. Infelizmente à minha volta não via apoio entre colegas, tudo com medinho da avaliação de professores, se tivessem “problemas” com os alunos, se os chumbassem (ou “retivessem” , como queiram), estavam a demitir-se de educar, de ser professores, mas sem rescindir… Não aguentei, tive azar, noutras escolas ( e também na escola onde trabalhei mais anos, mas eram poucos e distribuídos por turmas que não eram as minhas) sei que havia grupos coesos de professores que resistiram e educaram e mandaram a avaliação dar uma volta e apesar de serem os melhores, as classificações de “excelente” foram e continuam a ir para os amigos dos poderes instituídos nas escolinhas, mas nada disso os demoveu, continuaram! Eu não consegui. Sinto culpa disso. Tive de sair. E foi-me possível sair porque meus pais me educaram e tirei um bacharelato após o qual comecei a concorrer e consegui colocação aos 21 anos, por isso aos 55 tinha 33 anos de serviço, tive a “sorte”, dirão alguns, de poder sair. Mas a sorte foi ter pais que me educaram não apenas fazendo sacrifícios para que acabasse o curso mas também dando-me princípios que me fizeram depressa perceber que com o bacharelato já poderia concorrer e assim interrompi os estudos e fui colocada no Alentejo. O curso acabei-o mais tarde, já a trabalhar o que me baixou a nota, “mancha” que paguei toda a vida mesmo depois do mestrado com Muito Bom; as faculdades fazem a triagem pela nota da licenciatura que foi de 13, e não me envergonho dessa nota, do Instituto Superior de Economia e Finanças como então se chamava (ali no Quelhas).
Por isso tudo que disse, só sinto essa culpa , a de já não ter tido força mental para continuar a lutar , a saúde mental entrou em risco , tive de entrar em baixa médica, verdadeira podem crer, uma carreira toda quase sem faltas, baixa médica no fim da mesma por ter uma envolvente à qual me não conseguia já adaptar. Culpa que acho racionalmente imaginária, pois a verdade é que já não podia continuar. Não arrastei a baixa médica, com fazem muitos e não os julgo pois eu não tenho filhos para suportar…). Assim que fiz os 55 já lá estavam os papéis na CGA para a reforma antecipada sem ser por incapacidade (eu recusei considerar-me incapaz) , com a máxima penalização possível pela legislação de 2010. Mas a culpa imaginária é tão real como a culpa dita real.
Sonho com os alunos que deveria ainda ter, sonho com alunos que nunca conheci. Aqueles que seriam meus alunos se não me tivesse reformado. E nunca são pesadelos esses sonhos. São saudades.

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