A vida atarefada de um gato de campo

8 09 2012

Dizem que se está bem no campo e é verdade, mas já não é justo achar que a vida no campo seja um descanso. Nem para os seres humanos nem para um gato. Sobre o trabalho dos humanos cultivadores não queria agora escrever muito, até porque pouco há a dizer. Eles lá andam sempre a escavar a terra (que não usam para defecar como um gato normal quando faz um buraco), enterram umas plantas esquisitas, enquanto cortam outras (que até eram saborosas para um gato) ou estão sempre a molhar plantas que preferem, ou a borrifá-las com algo mal cheiroso, ou a colher umas coisas incomestíveis para um gato (como tomates, pepinos e feijões, tudo coisas perfeitamente insípidas para um felino normal). Eles, os humanos ,sobem às arvores para arrancar outras coisas inúteis a que chamam frutos. Mas não me apetece falar mais de humanos , quero agora escrever sobre o quotidiano de um simples gato numa quinta de um hectare. Para quem não saiba ainda, um hectare é múltiplo do metro quadrado, neste caso, 10 000 m2. Cerca de um campo de futebol. Muito grande para um gato normal mesmo encorpado. Ainda por cima o dito hectare tem muitos desníveis, árvores que se podem e devem escalar, recantos mais obscuros e uma fronteira sem qualquer muro : há aqui e ali uns paus a fazer de cancela, por onde passa à vontade um gato ou um cão pequeno (os grandes vão de volta uns metros adiante) uns arames ridículos e umas silvas. A fauna é limitada, já que os humanos têm a mania de limpar o mato (vantagem disto só há uma para um gato, que é a de desaparecerem aquelas plantas mais irritantes, como os tojos e as silvas, que magoam as patas mesmo já calejadas de um gato jovem). Um gato neste território (a que anexou umas ruínas próximas sem humanos) tem necessariamente uma vida muito preenchida . Tem muitos, mesmo muitos afazeres. Alguns são mesmo deveres, melhor dizendo. A defesa do território é uma obrigação, não é uma ocupação de lazer. E dá-lhe muito trabalho manter à distância da propriedade outros gatos e cães. Este trabalho no caso dos cães é mais esforçado, às vezes impossível, dependendo do porte do cão; que é medido cuidadosamente , não só o tamanho mas também a personalidade do dito, cuidadosamente estudado antes de qualquer ação. O gato só ataca se vir sinais de insegurança no invasor. Esta tarefa que tem de ser feita várias vezes ao dia, também deveria ser feita à noite, mas no caso deste gato particular não é possível como irei explicar mais adiante. Há que fazer rondas várias e observação repetida e sistemática em pontos de boa visibilidade. Nos intervalos destas funções, é de bom tom visitar os donos para mostrar laços de afeto e conseguir ás vezes uma recompensa em forma de petisco. As outras atividades de um gato de campo são injustamente consideradas pelos humanos como lazer: caçar besouros, escaravelhos, insetos vários saltadores, como gafanhotos e algumas aranhas, lagartixas que têm aquele golpe baixo de largarem o rabo que fica a contorcer-se, distraindo um gato inexperiente, enquanto o dono da dita peça corporal desaparece; outras artimanhas têm as rãs que ficam imóveis enganando traiçoeiramente o nobre bichano. Ao menos o rato do campo não é falso, não para quieto e, enquanto não lhe é ferrada a dentada fatal, foge, corre, guincha. Esta é presa mais substancial e é oferecida aos donos. Estes donos afagam-no quando a presa é rato , mas, injustamente, não acham graça nenhuma se a oferta é um pássaro, quando todo o gato sabe que apanhar uma ave implica muito mais paciência e destreza do caçador do que apanhar um reles ratinho do campo. Estas são as tarefas de um gato que não está inclinado para a pesca. Normalmente não gosta de água, mas na quinta há um tanque cheio de animais interessantes, mas caçá-los implica mergulho e este gato, como quase todos, não é um gato de água, não tem genes de tigre, o grande gato que dizem gostar de peixe.
Para além dos enumerados afazeres, há muito trabalho com a higiene corporal, a manicura nas árvores mais adequadas, o expurgo dos intestinos ( não há nada como fazer as “necessidades” no campo , ninguém ralha com ele, há espaço em todo o lado e vai marcando o território) e a limpeza do estômago (comendo erva que provoca o vómito necessário) ; estas tarefas são executadas de manhã , antes do pequeno almoço. A limpeza do pelo é trabalho longo e minucioso e é feita várias vezes mas sobretudo e sem falha, ao fim do dia , depois do jantar , antes de se ajeitar para dormir. A propósito disto há um senão no que respeita à hora de dormir, que não é escolhida por ele. Acontece que estes donos só dão o jantar no fim do dia e têm a mania de fechar portas e janelas à noite. Depois do jantar e depois de ter observado o jantar dos donos a ver se algo interessante lhe é dado como sobremesa, não podendo sair de novo como é seu desejo, não há mais nada a fazer, meditar um pouco, pentear-se e adormecer.
É uma vida rica em trabalhos, mas não há nada a dizer de mal, no campo ninguém se aborrece de tédio como num apartamento, onde um gato anda ocupado com apenas quatro coisas: comer, dormir, defecar e urinar, procurando fazê-lo nos vasos de plantas na varanda em vez de usar aquela ridícula caixota a que os humanos chamam liteira. Tentar morder os donos e brincar não tem piada, a primeira porque eles não gostam e ameaçam, a outra porque acaba num instante e saltar a tentar apanhar umas imitações idiotas de ratos não tem graça nenhuma, sobretudo para um gato que sabe que há ratos , lagartixas e insetos verdadeiros no seu amado jardinzinho de um hectare.


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