Fogo e memória… de meu pai, Cecílio Gomes da Silva

16 08 2012

Enquanto se vai pensando nos trabalhos a fazer  na floresta, vêm à ideia várias memórias. De meu pai , Cecílio Gomes da Silva e do que ele pensava sobre a “limpeza” das florestas. Já aqui postei algo sobre isto. Para ele uma floresta é um biótopo, penso que é assim que se diz, ou seja, é composta por bosque -árvores altas-, sub-bosque -que são arbustos- e manta morta -o folhado que tem a parte de cima seca, mas a parte de baixo em decomposião e que é o alimento da floresta. Nesse eco-sistema vivem aves, insectos vários e fauna de mamíferos. Sem os três elementos não é possível encontrar esses animais na floresta. Não é possível ter uma floresta, tem-se talvez uma indústria florestal sobretudo aquelas intermináveis manchas de eucaliptos e de pinhal em monocultura. O Eucalipto arde muitíssimo bem (e ainda bem digo eu) , consome tudo quanto é água e fundo de fertilidade da terra, a indústria da celulose não lhes dá tempo de devolverem à terra o que dela chuparam, pois os eucaliptos são produzidos em “talhadia” ou seja são abatidos jovens para triturar na indústia da celulose e do papel. O mesmo está a acontecer ao pinhal. A monocultura no que respeita ao pinhal está a dar agora os resultados que seriam de prever, o nemátodo está a dizimá-los. Resta saber se o facto de se ” limparem” os pinhais não contribuiu também para este problema, a árvore enfraquece se lhe tiram o alimento e não desenvolve resistência. Nem se lhes dá tempo de desenvovimento de espécies resistentes filhas das árvores atacadas . Mas isto digo eu que não tenho um curso de silvicultura nem o conhecimento profundo de meu pai . Tantas perguntas que surgem depois dos nossos pais partirem… são muitas conversas inacabadas pois a vida é curta demais e quando finalmente temos mais tempo para eles, já eles não precisam porque já cá não estão… E nós continuaremos sempre a precisar deles mesmo que também nós vejamos o tempo passar rápido e a hora de partir  já aparece no “horizonte de possibilidades” com mais nitidez…

Quando morreu o bombeiro que se deixou cercar pelo fogo, lembrei-me de meu pai e do fogo de 1966 na serra de Sintra, onde esteve vários dias e do que ele contou.  Tinha eu onze anos e não sei se ele escreveu sobre esse incêndio. É provável, mas os jornais de então eram todos censurados e um funcionário público não podia falar sobre o serviço. Mas lembro-me de ele contar os problemas que existiam no comando das operações, havia bombeiros , militares e serviços florestais (onde o meu pai trabalhava) tudo a dar ordens. Lembro-me que vinha furibundo por alguns militares lhe terem desobedecido e subido a serra contra as suas ordens, mas meu pai não era militar eles não obedeceram e foram encontrar a morte na serra encurralados pelo fogo. Nunca mais me esqueci disto. Procurei na net e encontrei um site com referência histórica a esse fogo de Sintra:

“Fogo & História”

Aqui se fala em 25 mortos, mas acho que o meu pai só se cruzou com sete e disse-se-lhes para não subirem. E que eles não seguiram o conselho e obedeceram a um militarzeco qualquer armado em herói e que terá sido o responsável pelos 25 que lá ficaram. Não sei quem foi nem interessa agora, se calhar também lá ficou. O que interessa é que nem sempre são os bombeiros que sabem a melhor forma de combater um fogo , apesar da experiência, apesar da louvável abnegação que , infelizmente, por vezes é a causadora de mortes inúteis. Meu pai achava que os militares poderiam ser muito úteis como auxiliares de sapadores mas sobretudo no patrulhamento da floresta, defendia um policiamento a cavalo à semelhança do Canadá. Há sítios que nem um jeep consegue atingir por não haver caminhos. Escreveu um artigo algures em que dizia ou citava algum dito popular: “quem guarda a vinha não é o cão, mas o medo do cão”.

Meu pai não gostava de contrafogos, como os americanos adoram fazer. Defendia a prevenção com barreiras ao fogo com espécies não combustíveis, folhosas e sobreiros, zonas sem vegetação só mesmo quando não há tempo para esperar pelo crescimento dessas espécies e então tem que se usar as máquinas para abrir clareiras contrafogo. Quanto à limpeza, apenas retirar o mato mais denso e seco, não cortar arbustos que retêm a água da humidade nocturna e muito menos retirar a manta-morta, o alimento da floresta. E quanto aos meios aéreos ele irritava-se muito ao ver os helicópteros com baldinhos de água a serem deitados sobre o fogo, dizia ele que tudo se evaporava e até se dava oxigénio ao fogo. Os baldinhos deviam ser deitados nas zonas não ardidas , o mesmo com as mangueiras dos meios terrestres, molhar tudo à frente ,no percurso previsto do fogo. Deixar arder, portanto , salvar tudo mais à frente, com prioridade às casas e povoações, claro está . Quanto ao vento, ele dizia que haverá SEMPRE VENTO- o fogo provoca vento, física elementar!!!

Achava que os aviões canadair tinham alguma eficácia largando água ou retardadores não tóxicos. Os helicópteros servem para gastar combustível e treinar pilotos, salvar pessoas, para apagar fogos florestais ele achava-os a modos que pequenos demais🙂 Achava também que o comando central deveria pertencer aos serviços florestais… que agora não faço ideia nenhuma de como funcionam nem conheço a qualidade dos especialistas em fogo florestal espero apenas que os tenham, muitos e bons!

PS: Coloquei o nome de meu pai no  título para facilitar buscas futuras. Este assunto é demasiado sério para não haver já uma solução coordenada, somos um país florestal por destino ou aptidão de grande percentagem do terrenos que fazem parte do nosso território continental e insular!!!! Qualquer inexactidão nos dados aqui referidos no pensamento de meu pai aqui mencionado será minha responsabilidade exclusiva, já que estou a descrever memórias.


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