Causas da catástrofe na Madeira: “Uma enxurrada começa com uma gota”

2 03 2010

 Publicado em ISLENHA,  nº 7 Jul-Dez 1990 e aqui parcialmente reproduzido

«UMA ENXURRADA COMEÇA COM UMA GOTA»

Por Cecílio Gomes da Silva

«Li na minha infância um belo conto cuja mensagem guardei na memória. Toda ela se concentra no desfecho: Uma gota caiu no mar e a onda disse: Era grande mas agora sou maior.

[…]

Uma gota caiu sobre uma pedra e a pedra disse: Breve chegarás ao mar; nada há para te deter.[…]

O CICLO ALUCINANTE DAS ENXURRADAS

É aquele o destino fatal das gotas que se precipitam nas serras despidas de vegetação. As cheias, os aludes, as enxurradas começam sempre com uma pequena gota. A princípio é como uma bênção para o que resta do solo pedregoso e ressequido. Mas rapidamente se juntam as gotas sem possibilidade de infiltração e formam velozes veios de água que unindo-se um a um, dois a dois numa progressão geométrica formam torrentes caudalosas que descem impetuosamente as encostas escarpadas. Sem nada que as detenha galgam e arrastam tudo na sua galopante passagem.

       […]

       Solo e subsolo são rasgados pela fúria da água, rolados encostas abaixo, arrastados em avalanche pelas águas tumultuosas e por fim depositados no fundo dos vales. Não ficam porém em descanso por muito tempo. As enxurradas consequentes arrastá-los-ão, cheia após cheia, a caminho do mar. As populações ao ruído ensurdecedor da sua cavalgada gritarão ao longo do vale o sinal da temerosa cheia –  A ribeira…! A ribeira…!

Descarnam-se as serras irremediavelmente. Chuvada após chuvada mais se acentua a torrencialidade, mais intensa é a acção erosiva e mais profunda a delapidação da montanha. Não há já possibilidade de infiltração para as camadas profundas do solo. Esgotam-se as reservas hídricas, extinguem-se fontes e nascentes, secam as levadas e as ribeiras. Com elas morrem as algas, os fungos, os musgos, os líquenes, os fetos e toda uma riquíssima flora herbácea ripícola. E morrerá fatalmente toda uma microflora, microfauna e entomofauna marginais de que se alimentavam os predadores que completavam aqueles micro-ecossistemas e meso-ecossistemas. Não mais espongiários, não mais vermes, não mais moluscos, não mais artrópodes (da carocha de água à libélula) não mais rãs, não mais eiroses, não mais lavadeiras, não mais melros…

Não poderá deixar de ser desastroso o efeito que causará (causa), nos ecossistemas circundantes. (Não esqueçamos que os poios onde se faz intensa e variada agricultura, Os inhames nas margens alagadiças e as canas vieira constituem ecossistemas porque há equilíbrio biológico). O desequilíbrio acontecerá e o Ambiente modificar-se-á. (E não será para melhor). Infelizmente esta situação desastrosa verifica-se já em grandes áreas das valas da vertente sul da ilha da Madeira.

Esta cadência acelerada de destruição não cessará nunca enquanto se mantiverem as causas do desnudamento das serras, ou seja, a destruição da floresta ou do que resta dela — o urzal.

Volto a insistir sem receio do me repetir: o fogo e o pastoreio selvagem de ovelhas, cabras e porcos pelas serras andam intimamente ligados. À medida que o solo se degrada e desaparece a vegetação rasteira que servia de pastos (miseravelmente fracos), chegam fogo ao urzal e à floresta para obterem novas áreas de pastagens, prosseguindo criminosamente na alarmante escalada de desertificação das nossas serras. Impunemente continuam a verificar-se estes actos atentatórios  do futuro da Madeira. Despudoradamente se implantam ciclódromos, hipódromos e outros ódromos, (sem quaisquer precauções de preservação do ambiente), que os evoluídos empreendedores pensam ser os grandes meios de desenvolvimento turístico.

Plantem árvores, protejam os restos da vegetação que ainda existe nos vales e planaltos do sul e defendam a preciosa floresta das encostas norte.

Só assim se recriará o Ambiente que deu fama à nossa Terra. Não foram as encostas acastanhadas, nuas e escalvadas  nem as nuvens de pó levantadas por correrias de ovelhas ou de motociclos que atraíram os turistas à ilha.

Vale sempre a pena plantar árvores porque, e passo a citar-me, não é por não plantarmos árvores que deixaremos de envelhecer.

A nuvem prossegue na sua ascensão. Galgando os altos picos e encumeadas, passando de rompante por Eiras, Bocas e Portelas despenha-se ribombando pelas encostas revestidas de espessas e densas florestas.

Uma gota cai das alturas; ganha velocidade e energia, acelerada pela forte corrente de ar. Vai de encontro a uma folha fortemente cutinizada de um til, faz ricochete, uma, duas, três, dez vezes, de encontro a outras tantas folhas. Perde rapidamente a energia adquirida na queda e fica colada cintilando como um diamante sobre o verde negro duma folha de louro. E diz o loureiro: Tens pressa de chegar ao mar, mas eu digo-te que tão cedo lá não chegarás. Guardar-te-ei longos meses: matarás a sede aos homens, regarás as terras secas no Verão, darás pão e darás luz.

[…]

Mas a chuva persiste, dir-se-ia tentando desesperadamente romper a resistência daquela verdejante capa que protege o solo. Na atmosfera escura acelera-se o ritmo da queda das gotas. Ligam-se então formando grossas cordas de água. Espirram em jactos de encontro às folhagens e ramadas superiores, pulverizam-se à medida que vão penetrando através daquela densa e frondosa rede de folhas e ramos.

No interior da floresta uma espessa névoa desce lentamente para o solo. Até lá ainda tem de vencer o quase impenetrável estrato intermédio de urzes, uveiras, fetos e muscíneas. Ultrapassa-o por saturação e chega lentamente ao estrato inferior de musgos, algas e líquenes. É absorvida durante muito tempo até que, saturada aquela manta viva, chega ao tapete de folhas, frutos e ramos semi-decompostos que forma o último estrato da floresta. Nela se vai embebendo, inchando aquela fabulosa esponja. Lenta e demorada é a sua descida para as camadas subjacentes de lavas e escórias meteorizadas. Infiltra-se e escoa-se por fendas e galerias vulcânicas e pelos canais abertos pelas poderosas raízes do til, do vinhático da urze e do loureiro, descendo cada vez mais fundo para o interior da montanha.

[…]

Cumpriu-se promessa do loureiro; a gota não se perderá no mar. Será fruta e será pão. Pelo caminho dará luz e calor e moverá máquinas e engenhos. Transformou-se em riqueza.

Esta riqueza poderá multiplicar-se se forem criadas as mesmas condições nas vertentes onde caíram as primeiras gotas que se perderam no mar.

Bastará plantar árvores, muitas árvores. E voltarei a repetir-me: Não é por não plantarmos árvores que deixaremos do envelhecer.»

“Abstract

The author alerts to the progressive deterioration of the ecosystems in the mountains of Madeira, which is at the origin of the increasing desertification, resulting from the felling of trees and cattle breeding.

To reverse this trend and avoid the irreparable destruction of the madeiran forest it is urgent to plant trees, to preserve the Laurisilva and ground vegetation which will retain waters in the soil, thus storing this life generating resource.”

Nota: Selecção, cortes e destacados a negrito da minha única responsabilidade.


Ações

Informação

One response

12 03 2010
A catástrofe (anunciada) na Madeira e invocação religiosa « maisk3D

[…] nem o último a falar das causas várias. (Actualização: as causas são tratadas em artigos como “Uma enxurrada começa com uma gota” postado neste blog em 2 de Março […]

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